
O espaço da cotidianidade é constituído pelo
conjunto de práticas e ações do dia-a-dia voltadas
para a subsistência e reprodução de cada pessoa,
pelas atividades de caráter particular, cujas motivações
são de natureza pessoal e relacionadas à subsistência
imediata. Caracteriza-se por todas as atividades
e práticas humanas que permitem a subsistência
do homem enquanto ser biológico e social.
São as práticas da cotidianidade que permitem a
reprodução da sociedade e a evolução de sua história.
O aspecto genérico/universal do cotidiano está
no fato de que é nele inserido que o homem se apropria
dos bens culturais, usos, hábitos, costumes e
valores acumulados pela sociedade. Contudo, essa
apropriação não garante que o homem particular se
torne um indivíduo genérico, ou seja, que se torne
consciente do seu lugar no espaço-tempo da história
da humanidade e, portanto, que se torne um indivíduo
livre.
Não existe sociedade nem ser humano particular
sem vida cotidiana, pois a vida cotidiana é o
espaço social básico e primeiro, no qual o homem
se constitui enquanto ser social ao se apropriar dos
três tipos de objetivações cotidianas: a língua, os
objetos (ferramentas, utensílios, instrumentos) e os
usos e costumes. Essas três objetivações são a
base para a formação social de qualquer indivíduo,
pois toda pessoa adulta e independente deve delas
ter se apropriado, sendo capaz de falar a língua de
sua sociedade, manipular seus utensílios e usos,
compreender os costumes e regras de conduta culturalmente
estabelecidas.
Berger e Luckmann (1983) chamam de socialização
primária a esse processo de aprendizado
espontâneo que ocorre pela inserção do ser humano,
a partir de seu nascimento, na vida cotidiana de
sua sociedade. Ele é o primeiro processo de aprendizagem
por que passa o ser humano enquanto ser social e é a base sobre a qual os demais processos
de aprendizagem (a escolar, a profissional etc..) irão
se assentar. E, exatamente por ser o primeiro e básico
processo de aprendizagem, a socialização primária
é fundamental na definição das orientações,
gostos, hábitos e atitudes da pessoa. Além disso, a
socialização primária tem um caráter muito mais fundamental
na vida dos indivíduos porque ocorre mediada
pelas figuras mais próximas da criança, como
os pais e familiares, o que lhe confere um alto grau
de afetividade. Portanto, nenhum processo de educação
formal, institucionalizado, enquanto processo
de socialização secundária, pode negligenciar o valor
fundamental da aprendizagem cotidiana dos alunos.
Nessa perspectiva, Souza (1996, 2000) já apontou
para a necessidade de se tomar o cotidiano,
com suas aprendizagens e práticas musicais espontâneas,
como perspectiva para a educação
musical escolar.
No caso da educação musical formal, o que
poderia ser esse “algo a mais”? Diante de um universo
musical cotidiano tecnológico e midiatizado, no
qual a música está fortemente associada apenas ao
entretenimento, ao consumo, ao espetáculo (fama,
status, beleza física etc..), como recuperar seu potencial
formador e transformador do ser humano, sem
negar ou menosprezar a bagagem cotidiana de conhecimento
musical dos alunos? Como recuperar as
muitas funções sociais da música (Freire, 1992),
além das meras funções de entretenimento e reação
física (Nanni, 2000) que têm prevalecido nas práticas
musicais cotidianas de hoje?
A partir da obra de Heller, pode-se conceber a
música tanto como uma objetivação da vida cotidiana
(como uma prática cotidiana funcional e pragmática,
cuja natureza e objetivo, dentre tantos, seriam:
entreter, emocionar, dar prazer, acalmar, amparar,
acompanhar, estimular a religiosidade, dar vazão aos
afetos), como também concebê-la como uma objetivação
das esferas não-cotidianas (como arte, como
forma de conhecimento, como possibilidade de levar
o homem a transformar-se positivamente, a transcender
suas motivações cotidianas imediatas, para
entrar em contato com sua essência universal, genérica).
Uma das reflexões que podem ser colocadas
para a educação musical a partir da obra de Heller 8
é: como se conceber a música nos programas formais
de ensino musical? Ou ainda: os programas
de ensino formal têm estado conscientes sobre como
a música tem sido abordada? Abordá-la apenas
como prática social cotidiana pode ser tão incorreto
como abordá-la apenas como arte, como prática
social não-cotidiana. Parece que a melhor opção é
ver essas duas possibilidades como não excludentes,
uma vez que a música pode ser, em si mesma, uma
objetivação cotidiana e não-cotidiana ao mesmo tempo,
dependendo não só de suas qualidades formais
e estéticas, mas principalmente de seus usos e de
suas qualidades simbólicas, ou seja, dos significados
e sentidos que ela assume nas vidas individuais
ou na vida coletiva das sociedades. Por isso torna-se
necessário estudar as características do universo
musical cotidiano dos alunos: porque as qualidades
simbólicas, os significados partilhados e os sentidos
pessoais que as músicas assumem na vida
das pessoas são construídos e assimilados, inicialmente,
no espaço social do cotidiano, por meio do
processo de socialização primária. É necessário,
antes de tudo, conhecer e valorizar o conhecimento
musical informal dos alunos, não só para usá-lo como
estratégia motivadora de musicalização, mas para
entendê-lo como fenômeno social humano.